Os Danados - Chegamos!

Todo o caminho para a vila é estranho. Não há qualquer sinal de vida nas redondezas, nem os mosquitos se aproximam da velha e grande carruagem e as árvores murcham à sua passagem. Não há sequer sinal do século XXI, as estradas estão desertas, não se vê um carro.
Geremias leva os seus garanhões para uma estrada de terra e começam a atravessar verdadeiras aldeias fantasma. As casas estão abandonadas e destruídas.
- Foram caíndo com o tempo. - grita Geremias do lado de fora.
António sua por todos os lados. O medo e o espanto notam-se nos seus olhos. A sua vontade era abrir a porta, saltar e desatar a correr enquanto podia.
- Estamos a entrar nos terrenos da vila, Sr. Inspector. A partir daqui não pode voltar atrás. - diz Geremias - A saltar é agora.
António fica ainda mais assustado ainda, ao perceber que Geremias tinha lido o seu pensamento, mesmo sem estar a olhá-lo.
Chegam finalmente à vila. As pessoas fitam a carruagem, tentando perceber quem chega. António abre a porta e, lenta e cautelosamente, põe um pé de fora e espreita.
- Saia Sr. Inspector. Não tenha medo que aqui ninguém morde. - diz Geremias.
- Sim, sim, saio já. - responde António.
O jovem guarda salta da carruagem e repara que o único sinal da civilização moderna, são a camisa que traz vestida, as suas calças de ganga e as confortáveis sapatilhas que tem nos pés. Tudo o resto desde as ruas às casas, as roupas da população, tudo ficou estacionado no século XIX.
Um homem gordo, de bigode grisalho e imponente, com uma velha farda da Guarda Nacional Republicana e uma capa, aproxima-se, vindo do outro lado da rua.
- Muito boa tarde. Presumo que seja o Inspector Silva. - diz o homem - O meu nome é Anacleto Pina, mas pode-me chamar Coronel.
- Guarda Silva. Ainda não sou inspector. - diz o jovem.
- Mas será. Este é o seu exame final. Geremias, leve as coisas do inspector para casa da Dona Maria, por favor.
- Sim, Coronel. - responde Geremias.
- Sr. inspector, siga-me se não se importa. Vou apresentá-lo às pessoas mais importantes da vila, que o irão pôr ao corrente da situação.
Caminharam até uma casa enorme, com dois pisos, que tinha inscrito, numa placa, no portão, "Câmara dos Comuns de São Cristovão de Remoinho".
- Porquê câmara dos comuns. - perguntou António?
- Como a vila foi esquecida pelo resto do mundo, muito antes de eu aqui chegar, a população viu-se forçada a criar um governo próprio. Esta vila é o seu país e tem as suas regras, até que tudo possa voltar à normalidade. - respondeu o coronel.
Dentro da casa encontram-se quatro homens, todos eles bem vestidos.
- Inspector Silva, apresento-lhe o nosso presidente, Dr. João Maria Pinto, o vice-presidente, Sr. Joaquim Moreira, o tesoureiro e armador da vila, o Sr. Manuel Sousa, e o Juiz Macário, uma espécie de ministro da justiça.
- Muito boa tarde. - dizem três dos quatro homens.
António cumprimenta os quatro homens, um a um.
O juiz, envergando uma toga, preta, e uma peruca, encaracolada, branca, é o primeiro a falar.
- Foi-nos transmitido que é o melhor a desvendar casos, na sua cidade. É verdade?
Envergonhado, António responde.
- Dizem que sim. Desvendei três casos seguidos, sem ajuda de ninguém e, por isso, me mandaram para a PJ, para tirar o curso de inspector. Mas dái a ser o melhor... Não faço do meu trabalho uma competição.
Manuel Sousa, de olhar profundo, fato preto, sapatos pretos e brancos, uma cartola e uma bengala muito estranha, em que a pega é uma caveira, é o seguinte.
- O sr. inspector está preparado para o que o espera, nesta nossa vila, tão especial?
- Eu não sei o que me espera, mas estou preparado para qualquer coisa.
- A vila está assombrada, dizem. Vai fazer cento e vinte anos que acontecem coisas muito estranhas aqui. O único que sabe entrar e sair da vila é Geremias e é cego. Dizem que são os seus cavalos, que sabem o caminho, mas eu acho que, por não ver, não se consegue perder, nas voltas que a vila dá. Todas as noites alguém desaparece e aparece, dias depois, ou sem cabeça, ou enforcado, no velho carvalho, no centro da vila. Há cento e vinte anos que ninguém sabe o que se passa, que ninguém vê o que se passa. Uns dizem ter visto um cavaleiro, de armadura negra, num enorme cavalo preto e com uma grande espada. Outros dizem ter visto um dragão, outros ainda dizem ver uma nebelina negra... Há muitas versões, mas nenhuma parece ser verdade. Há cento e vinte anos que a nossa vila não evolui. Não há electricidade, não há água canalizada, não temos roupas como as suas. Há cento e vinte anos que as mulheres são "comidas", como se nós homens fôssemos animais, para que nasçam crianças quase todos os dias, pois não vamos deixar que esta população acabe. É por isso que aqui está. Precisamos de ajuda para desvendar este mistério, de uma vez por todas e acabar com tudo isto. O Coronel Pina e o Zé do Poço, que vai conhecer, são os únicos agentes de autoridade da vila e vão ajudá-lo, em tudo o que precisar. - interviu o Dr. João.
Assustado, António responde.
- Vou fazer o meu melhor, Sr. Presidente. Vou fazer o meu melhor.
Sentado num canto, calado e observador, também ele vestido de negro, está o vice-presidente. Fita António, com ar de desconfiança, parece haver algo que não quer revelar.
- Estamos a perder muito tempo com conversas. Vá para casa e descanse. Amanhã comece a trabalhar bem cedo, porque este caso tem de ser resolvido rapidamente. - resmunga, levantando-se e saindo da sala.
- Bem, acho que vou acatar o conselho do Sr. Joaquim e vou descansar. Tem sido um dia muito duro, para mim. Meus senhores, muito boa tarde. - despede-se António.
- Eu acompanho-o. - diz o coronel.
Saiem da casa, em direcção à casa da Dona Maria, onde Geremias deixara as coisas do Inspector.

Continua...

Comentários

  1. Estou a gostar de ler o teu conto. Penso que será um conto.

    Tem pernas para andar, sim senhor.
    Parabéns. Fico à espera de mais.

    Entretanto, manda-me o texto todo por mail; há umas coisitas de português que era bom emendares, já agora! Por exexmplo, é interveio e não interviu (verbo intervir, conjuga-se como vir e não como ver)
    Beijinhos

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  2. entao? e a continuaçao?nc mais....
    jinhu

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