O Sonho Português
Leio muito sobre perseguir o emprego dos nossos sonhos.
Os entendidos aconselham a fazermos, profissionalmente, aquilo que realmente gostamos, uma vez que o risco de perdermos facilmente o emprego, por não estarmos motivados, é muito alto. Defendem que se não gostamos do que fazemos nunca seremos felizes e não nos sentiremos realizados a nível profissional. E muitos são os livros e artigos escritos sobre o tema e com um número infindável de conselhos e dicas para alcançar esse feito. Eu sou um dos defensores desta máxima e acredito que hei-de, um dia, viver daquilo que gosto mesmo, mas só quando estiver reformado e tiver um rendimento mensal seguro, para me poder dedicar à escrita e à música sem correr o risco de morrer à fome.
Em Portugal, viver daquilo que se gosta, de uma paixão, é muito raro (não é inexistente e conheço alguns casos). Querer um emprego de sonho não passa disso, de querer. Ninguém nos abre uma porta. Abre, no máximo, uma janela e daquelas pequeninas, onde só passa a cabeça. Não há espaço para novos escritores, só os velhos têm direito a publicar o que escrevem, sem pagar um único cêntimo. Os novos escritores têm, na maioria das vezes de sustentar os elevados cargos de edição de uma obra, se quiserem ver os seus trabalhos na prateleira. Muitas são as bandas novas, na música nacional, mas perguntem aos meus colegas quantos deles vivem daquilo que adoram fazer e todos eles vos respondem que nenhum. A não ser que sejamos parentes de Tony Carreira, ou andemos em busca do "Pai da Criança", nunca vamos fazer dinheiro suficiente para pagar as contas ao fim do mês. É lógico que há alguns com sorte, como David Fonseca ou os The Gift (suportaram todos os custos de gravação e expedição do primeiro disco), e outros monstros sagrados: Rui Veloso, Xutos e Pontapés, Jorge Palma, etc.; que são afortunados o suficiente para viverem do seu sonho de meninos. Todos os artistas nacionais que se podem dar ao luxo, e muitas vezes não é luxo nenhum, de viver da sua arte ou vêm de tempos longínquos, ou tiveram primeiro sucesso no estrangeiro. Porque o que vem de fora é que é bom e o que está cá dentro não presta.
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