Super-poderes

O poder. O poder da palavra. O poder de transmitir, por escrito, sensações que só o nosso cérebro e o nosso coração entendem. Um poder que só alguns possuem.

Há quem consiga, afortunado seja, transmitir pela palavra a imagem, mental ou física, que vivenciou. Que consiga transpor na perfeição o sentimento, a emoção. Que nos consiga fazer chorar, rir, corar, ter medo. Há quem consiga tocar nos botões certos do nosso cérebro, do nosso âmago, e consiga fazer-nos sentir o que sentiu. Somente através de texto. Somente através de caracteres ordenados de forma estratégica, de forma meticulosa e melodiosa. Tornando o livro num prazer doloroso e viciante, que agarramos e não largamos até final e ao qual, mesmo após terminado, voltamos, vezes sem conta, para reviver.

E sabemos que um livro, um texto, ou uma mensagem são bem escritos quando nos sentimos vibrar com eles. Quando o tomamos como nosso e o vivemos da mesma forma que a personagem, ou o seu autor. Se lemos um livro erótico e damos por nós enfermos de desejo pela personagem principal, sedentos de prazer, capazes de saltar para as páginas e atacar selvaticamente a mulher/homem descrito. Se lemos um livro de aventuras sentimos o coração correr, decididos a entrar na caverna e matar o dragão. Se lemos um livro misterioso e sentimos o medo, que nos faz olhar por cima do ombro a cada esquina que passa. Se lemos um livro e nos sentimos dentro dele. Se sentimos que a história que narra é nossa. Se lemos um texto, uma crónica e sentimos as palavras como objetos palpáveis e vivos. Então sabemos que lemos uma obra de arte. Um pedaço de céu.

Há quem tenha o poder da palavra. Uns reconhecidos, outros por reconhecer, não importa. Há quem tenha esse poder. O poder de transmitir por símbolos aquilo que só o coração e a mente compreendem e assimilam. De transmitir tais sentimentos de forma tão real e verdadeira que os absorvemos como se fossem a água ou o ar que precisamos para viver. E quem o tem, tem um super-poder.

Quem me conhece, mesmo, sabe que ler, para mim, sempre foi um sacrifício, uma penúria. Mas, depois que descobri esta paixão pela escrita, tornou-se um vício que nunca mais me largou. Um vício entranhado nas veias, o qual preso e alimento todos os dias. Obrigado a alguém especial, por me ter incentivado à escrita e por me apontar o caminho das letras. Devia ter ouvido mais cedo. Obrigado, São.

Comentários