Os Danados - A Primeira Noite!

António e o Coronel chegam a casa da Dona Maria e batem à porta.
- Só um segundo - respondem do interior.
Uma jovem senhora, na casa dos trinta anos abre a porta, sorrindo. Traz um vestido até aos pés, em tons castanhos e sem mangas.
- Muito boa tarde senhor Coronel - cumprimenta a mulher.
- Boa tarde. - responde o coronel - Este é o inspector Silva. Inspector, esta é a menina Mariana, filha da dona Maria, a dona da casa.
Com um beijo na mão o jovem guarda cumprimenta-a.
- Boa tarde, como está?
A jovem cora e sorri.
- Presumo que o Geremías tenha deixado as coisas do inspector. - airmou o coronel.
- Sim, deixou. - responde Mariana - Entrem, entrem.
Tudo na casa é antigo e cheira a velho. Não há televisão, ou outros vestígios de tecnologia. Na conzinha está uma senhoram, com os seus cinquenta anos, vestida de negro.
- Boa tarde. Presumo que seja o inspector. - diz a senhora - Permita que me apresente. Maria dos Santos.
- Foi a dona Maria que me ajudou a ambientar à vila. A ela devo muito. - afirma o coronel - Agora vai ajudá-lo a si. Aqui pode estar à vontade. Faça de conta que está e casa.
- É verdade. Ponha-se à vontade inspector. - confirmou a senhora.
- Se não se importam, preferia que me chamassem António. Não sou muito dado a formalidades.
- Vou tentar. - respondeu dona Maria.
O coronel e a senhora retiram-se, deixando os dois jovens sozinhos, na cozinha.
- Será possível mostrar-me o quarto? Estou um pouco cansado e queria deitar-me. - perguntou António.
- Sim, claro. Siga-me inspector... Peço desculpa, António. - respondeu Mariana.
Saíram da cozinha e seguiram em direcção ao quarto. Subiram três lances de escadas, chegando ao sotão da casa.
- Este é o seu quarto. - diz a jovem - Só tem uma janela, infelizmente, mas é grande e tem casa-de-banho própria. Pode estar à vontade aqui. Quando o jantar estiver na mesa, eu chamo.
- Peço desculpa, mas não contem comigo para jantar. - disse António - Estou mesmo cansado e, depois de adormecer, o mais certo é só acordar amanhã.
- Com certeza, como queira.
Mariana retira-se.
- Com licença.
E fecha a porta atrás de si.
No andar de baixo, num quarto grande, com uma enorme cama de casal, o coronel e dona Maria conversam, cúmplices.
- Maria, toma-me bem conta deste rapaz. Alimenta-o e ajuda-o, o melhor que puderes. Ele é a nossa última esperança. - afirma o coronel.
- Não te preocupes Anacleto. Ele está em boas mãos. - responde a senhora - Quando voltas cá? Tenho saudades tuas.
- Amanhã, Maria, prometo que amanhã cá venho. Agora tenho de ir, tenho papeis para preencher. Já sabes, toma conta do rapaz.
- Sim, não te preocupes.
O coronel e dona Maria beijam-se e saiem do quarto. Descem as escadas juntos. O coronel sai e dona Maria regressa à cozinha.
- Minha mãe, o inspector diz que não quer jantar e pede que não o incomodem. Estava cansado e queria dormir, mostrei-lhe o quarto. - diz Mariana.
- Sim, minha filha, fizeste bem. - responde dona Maria.
No quarto, António dá voltas e voltas e pnsa para si:
- Vou esperar pela noite e vou fugir daqui enquanto posso. Este lugar é de loucos.
A noite chega. As duas mulheres deitam-se. Ao ouvir as portas dos quartos baterem, António olha pela janela, que dava para o telhado da casa vizinha.
- É melhor tentar a porta. A janela fica muito alta.
António sai do quarto, sem fazer barulho e desce as escadas em direcção à porta.
- É agora, já não volto atrás. - diz para si mesmo.
Abre a porta, sair para a rua e fecha-a atrás de si.
Na rua não há ninguém. Com medo de serem as prósimas, as pessoas fecham-se em casa mal cai a noite e de lá não saiem. António tem tempo e espaço para pôr o seu plano em marcha. Tenta procurar, com os olhos, o caminho por onde entrou na vila, mas sente-se perdido e não encontra. Tomando uma atitude, desce a rua e contorna a esquina, em direcção à floresta que circunda a vila. Olha para ambos os lados, certeficando-se de que está sozinho. Começa, então a correr, entrando na mata. Corre, corre e corre cada vez mais. Embrenhado na mata, vai-se desviando de todo e qualquer obstáculo, está decidido a fugir e não pára. Corre sempre em linha recta, sem fazer uma única curva, para não se perder. Ao im de trinta minutos seguidos a correr, António avista, ao fundo, umas luzes.
- Estou safo. Consegui. - pensa para com os seus botões.
Acelera mais o passo, na ânsia de alcançar a aldeia. Chega, finalmente. Cansado dobra-se e agarra-se aos joelhos para recuperar o fôlego, sorrindo. De repente, ouve uma voz.
- Cá fora a esta hora, inspector?
É Geremías. António fita-o com terror e apercebe-se que estava de volta à vila. Como era possível? Tinha saído da vila há minutos e tinha a certeza de não ter virado em lado algum. Não podia estar de volta. Para não se denunciar responde.
- É verdade. Não conseguia dormir e pensei vir correr um pouco para ver se ganho sono.
- Ah! Muito bem. Eu vou dar o jantar aos meus meninos. - responde Geremias.
- Então boa noite.
- Boa noite, inspector.
António endireita-se e sai em direcção à rua, na frente das casas. Olha para a esquerda e para a direita e desata a correr atravessando a rua e entrando na floresta, pelo lado oposto. Volta a correr, feito perdido e sem parar. Mais meia hora e volta a vistar luz. Desta vez tem a certeza que vai na direcção certa. Sai da floresta e entra na aldeia, para a salvação.
- Ainda não está cansado. - diz uma voz.
É Geremias, novamente. António deixa-se cair, incrédulo e desesperado.
- Já está a correr há uma hora inspector. É melhor ir para dentro. Ainda é raptado.
- É, vou para a cama. - responde o jovem - já é tarde e amanhã vai ser um dia complicado. Boa noite.
- Boa noite, inspector - responde Geremaias, sorrindo.
António levanta-se e segue, em direção à casa de dona Maria.

Continua...

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