Viagens na Minha Terra

A crise. A crise obriga a mudanças. Obriga a que tomemos decisões, pequenas ou grandes decisões, de modo a fazer esticar um ordenado que é curto demais para 30 dias num mês. A crise obriga a poupar. Aliás, em todas as alturas devemos poupar, mas a crise obriga a que poupemos mais ainda.

Dada a situação económica em que nos encontramos, eu tomei a minha decisão. Fiz uma grande mudança. Larguei o carro em casa. Quase abandonado e esquecido, num lugar de garagem frio e húmido. Passei a usar o comboio, carinhosamente conhecido por Quim. Todos os dias saio cedo e caminho para a estação. Poupando no combustível, mas gastando as solas dos sapatos, que sempre saem mais baratas. São dez minutos debaixo de frio e chuva, ou, nos dias de sorte, algum sol. Poupo algum dinheiro, mas gasto calorias, que até faz bem à saúde. Chegado à estação, espero pelo Quim, num corredor ventoso. Abrigo-me na "sala de espera", que mais não é que uma paragem de autocarro, estrategicamente colocada, dentro da estação. Chega o amigo Quim e começa a viagem.

De Ermesinde à vila das Aves há meia hora de separação. Quase tanto tempo como de carro, mas sem o trânsito e os semáforos. Passeio fácil de fazer e sem vir ao volante. Tempo de sobra, de resto, para ler um livro, observar a paisagem, ou as pernas da moça que for sentada à nossa frente. Em meia hora muito se vê e quase tudo se "apanha". Desde adolescentes com problemas amorosos, a idosos em competições de doenças e maleitas. Desde mães preocupadas com os filhos, aos filhos que não estão minimamente preocupados com os pais. Vemos árvores, casas, ruas, rios, animais em pleno ato coital e outras coisas que tal. É uma viagem que se faz com gosto. Não fossem as dez horas de trabalho, seguidas, que separam a vinda da ida para casa, a viagem seria perfeita, por vilas e campos, por entre o verde da floresta e o cinzento da Siderurgia Nacional.

A crise obriga a mudanças. Sinto falta do rádio, da música escolhida por mim, do sossego da viagem a sós. Mas viajar de comboio é uma ótima experiência. Não sinto falta do stress, da pressa de chegar, dos insultos aos camaradas condutores, das buzinadelas. Passo em terras que nunca antes tinha visitado. Faço, no fundo, viagens na minha terra.

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