Errado

Praticamente desde que sou pai que vivo numa espécie de conflito interno.

Nunca fui muito capitalista. Quer dizer, gosto de comprar coisas, mas odeio a ideia por trás do dinheiro. O conceito de vida, que levamos, é doentio. Matamo-nos, literalmente, a trabalhar. E para quê?

Isto agravou-se quando a Maria nasceu. Passamos 8 horas do nosso dia, no meu caso até mais, longe da família. Mal vemos o desenvolvimento das crianças. Perdemos momentos importantes, porque, para viver nesta sociedade, precisamos de uns trocos. Trocos esses que mal chegam ao fim do mês. É uma luta constante e inglória, que nos tira as maiores riquezas que temos, a família e o seu amor. Depois, dizemos que os filhos crescem muito depressa. Não crescem, nós é que não estamos lá para ver.

Todos os dias, quando me levanto e tenho de sair de casa, levo comigo uma mancha negra na alma. Não devia ser assim. Devíamos poder brincar, educar, aprender com os nossos miúdos. Passear, viajar, conhecer o mundo. Ler, escrever, meditar. Não perder tempo útil de vida num emprego que não paga, muitas vezes, sequer, para comer. Que nos tira a saúde e a lucidez. Não devia ser assim.

Está errado.

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