Memórias

Tenho andado demasiado filosófico. Tenho passado mais tempo ligado ao meu cérebro e ao meu pensamento do que ao resto do meu corpo. O que me faz estar atento, ou delirante, às coisas que por lá se passam.

Nos últimos tempos, começo a achar que nada que vivemos é real. Tudo o que os nossos olhos vêem é passado. Quando nos apercebemos de algo que está a acontecer, esse algo já passou. O cérebro recebe a informação e só uns milésimos de segundo depois é que a transmite, sob forma de imagem. Mais alguns milésimos de segundo e recebemos a resposta do cérebro, em forma de emoção e comportamento. Portanto, tudo o que sentimos em relação a uma situação, acontecimento, é, também, passado. Já lá não está, já não existe.

Da mesma forma, as memórias que vamos guardando não são fidedignas. Não representam, a 100%, os acontecimentos e sentimentos do episódio que vivemos. Um exemplo, o concerto a que assisti na sexta-feira. Muito aguardado por mim, e muitos outros, foi algo incrível. Um concerto que já ninguém esperava ver, nesta vida. Sei que me senti extremamente contente, que vibrei com cada acorde e cada passo da música. Sei que saltei, dancei, gritei. Mas, que emoções senti? Como me senti, na realidade? Não me lembro. Mesmo as imagens do concerto, muitas, tive de rever nos vídeos disponíveis no Youtube.

Tal como o concerto, o nascimento da minha filha não está completo. O acontecimento mais marcante da minha vida tem falhas, no que a memórias diz respeito. Lembro-me de estar na sala de parto, de passar, o que me pareceram horas, a olhar aquele pequeno ser, recém-nascido, nos olhos e do que comi nesse dia. Não me lembro a hora exata do seu nascimento, nem do que se passou depois. Muito menos me lembro do sentimento, real, agarrado a esse acontecimento.

Tenho andado muito ligado à filosofia. Começo, até, a ficar um pouco estranho. E começo a achar que nada disto é real. Que vivemos numa ilusão. Será que existem mesmo impossíveis, ou que, na verdade, tudo é possível? Será que só não arriscamos porque nos fizeram acreditar numa mentira, demasiado bem contada? Dúvidas.

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