O Desabafo de Lúcifer
Lúcifer, o Príncipe das Trevas, ou como sou mais conhecido,
o Diabo. O criador de todo o mal. Aquele que traz a fome e a guerra. A cólera e
o cancro. Os assaltos à mão armada, as armas de destruição maciça, as violações
e outros “senões”. O guarda dos portões do inferno, Belzebu. O imortal anjo
caído de ao pé de Deus todo-o-poderoso. Aquele que todos temem e que, ao mesmo
tempo, a todos fascina. A besta. O do “666” e do tridente. O mafarrico. Esse.
É assim que os fiéis humanos, os comuns dos mortais me
conhecem. É assim que a igreja, essa malfadada instituição, me fez passar para
o mundo exterior. Como um mal a evitar e um exemplo a não seguir. Repito, que a
igreja me fez.
Na realidade, sou um anjo como qualquer outro. Não tenho poderes
senão o de satisfazer o Criador. E esta é a palavra-chave: o Criador. Se há
alguém, ou algo, com poder de criar é Deus. E Deus criou. O ser humano, também
ele com capacidades criadoras. E o ser humano criou. Teorias e conspirações.
Criou um livro a que chamou de sagrado e aproveitou-se do coitado que tinha
sido castigo por Deus nosso Senhor e fez dele o rei de tudo o que é malévolo.
Pobre coitado, foi apenas escolhido para controlar as entradas no mundo
perdido. Eu. E desse livro e dessas conspirações criou a igreja. Fez
mandamentos e regras, qual tribunal regido por Deus. E, segundo essas regras,
julga o bem e o mal. Assenta toda a sua existência na crença de que essas
regras e esses escritos estão corretos e são o caminho a seguir. Erradamente.
Lamento que, ao longo de tantos séculos, tenham pensado
assim. A única forma de fugirem ao meu local de trabalho, uma vez que o paraíso
não existe – peço perdão por desiludir-vos, mas é a mais pura das verdades, o
que há é o descanso eterno, sem a perdição da alma, a paz suprema – é viverem a
vida segundo as vossas regras interiores, as vossas crenças e a vossa
inspiração. Quem prega erradamente e em vão e vive de forma fanática as regras
da igreja, qualquer igreja, de qualquer religião – porque o criador é o mesmo,
para quem não sabia – ou as regras em geral, corre o
sério risco de vir parar aqui ao paraíso tropical do tio Lúcifer.
Quando Deus criou o homem, criou milhares de milhões de
seres diferentes, com diferentes formas de pensar. Houve até um deles que, brilhantemente,
alcançou a teoria da relatividade. Um dos segredos do Senhor, guardado no seio
dos homens. O que isto quer dizer é que, tal como tudo na vossa santa vida, o
bem e o mal estão dentro de vós. No vosso mundinho e realidade separados do
mundinho e realidade do vosso vizinho. O que para uns é bem, para os outros é
mal e vice-versa. Para um ladrão, roubar é a melhor coisa que ele sabe fazer, é
o bem. Para quem é roubado é o mal em toda a sua “pureza”, se assim se pode
chamar. Para um padre, proclamar a “palavra do Senhor” e os benefícios de
celibato é o bem supremo. Para muitos descrentes isso chama-se hipocrisia e
enganar os fiéis. O bem e o mal, como o certo e o errado, o alto e o baixo, não
passam de pensamentos dentro dessas vossas cabecinhas. E de pensamentos é que
vocês fazem a vossa vida. Tudo gira à volta dos vossos pensamentos. A forma
como pensais é a forma como viveis. Deus assim vos criou, pois quer que o
imiteis e crieis vós o vosso universo, para que o dele perdure até à
eternidade. E mais uma vez, Deus criou-vos, não Lúcifer.
Como podem ver, o vosso pensamento é o vosso poder criador.
O mesmo poder criador do… Criador. Ele pensou, logo vocês existiram. O problema
aqui é o vosso poder criador ter sido, nos últimos tempos, 10 ou 20 séculos,
vá, um poder destruidor. Vocês pensaram e as armas surgiram. Vocês pensaram e
fizeram aparecer o dinheiro. O dinheiro foi mais inteligente e fez surgir a
ganância. Esperem, o dinheiro não pensa. Vocês focaram-se demais no dinheiro e
surgiu a ganância, assim é que é. Com tanta coisa para fazer por dinheiro,
tiveram de criar o conceito de tempo. Com o tempo nasceu o stress porque o
tempo para “fazer” dinheiro era pouco. Com o stress apareceram cada vez mais e
mais novas doenças, sobre as quais nem eu, nem nenhum outro anjo temos
influência. Estas doenças trouxeram mais stress. Mais stress fez crescer o medo
(que não passa de um pensamento estúpido, aliás, mais um, que vocês têm nessas
cabecinhas). E por aí fora. Tudo isto começou na vossa mente. Naquilo que vocês
pensam. Nos macaquinhos que habitam o vosso sótão. Vocês, ser humano,
desprezível, criaram todas estas coisas. Alguém as quis inventar. Agora não
atirem as culpas para o pobre do anjo. Sim, até as doenças. Para alguém criar a
cura, outro alguém teve de desenvolver uma doença. E a poluição também. Eu nem
ando de carro, não consumo electricidade, nem faço lixo. Foram vocês. Aqueles
que me apontam o dedo.
Vocês que criaram isto tudo, podiam usar esses pensamentos
para criar coisas mais agradáveis e poderosas. Mas não. Criam uma quantidade
“bíblica” – tinha de introduzir uma piada religiosa – de caca celestial e
depois apontam o dedo a Deus e ao Diabo. Quando é que começam a
responsabilizar-se pelas vossas miseráveis vidinhas? Sim, porque vocês têm o controlo
para serem e fazerem o que quiserem. Querem ir à lua, pensem, acreditem,
sonhem. Não se limitem. O Criador não se limitou e descarregou uma “porrada” de
planetas e galáxias, até ficar satisfeito com um deles. Ou dois. Ou se calhar
três. Também não posso revelar mais, procurem por mais vida, se quiserem. Lá
está, pensem, acreditem e, quem sabe, não és tu, sim tu, que vais descobrir
vida num outro planeta. E tu, sim tu, que achas que és ladrão porque estava
escrito. Não estava. Ninguém predestinou que ias andar a roubar velhinhas e a
violar ovelhas. Se não isso que queres ser, está dentro de ti mudar. Não é Deus
que faz, ou fez a vossa vida. A vossa existência sim, mas não a vossa vida. Não
fui eu que criei nada do que é mau que te aconteça. Nem é o governo do teu país
que dita a tua situação social. És tu e os teus pensamentos que influenciam as
tuas escolhas. E estás sempre a tempo de mudar. A não ser que não queiras.
Ok, os vossos pensamentos não controlam nem criam as forças
da Natureza. Não controlam o girar da Terra. Mas controlam a forma como vocês
reagem perante o que acontece, que está fora do vosso controlo. Se vocês
passarem a vida a pensar que o mundo é uma desgraça e a vida é muito difícil,
numa situação de crise vão chorar baba e ranho e, mais uma vez, atirar a culpa
aqui para o menino. Pelo contrário, se pensarem no mundo como um lugar mágico e
espetacular, onde não há problemas só desafios, na mesma situação
prontificam-se a ajudar. Sorriem e seguem em frente. Daí que, sim, não
controlam o mundo, mas controlam a forma como reagem ao que o mundo faz. E isso
é ainda mais importante.
E tenho outro segredo para vocês. Mais importante do que os
que já revelei. É que vocês foram tão enganadinhos pela “palavra”. Acreditam em
cada coisa. Nada do que vocês façam, criem, ou busquem vos fará felizes. Tal
como o vosso poder criador, a vossa felicidade está dentro de vocês. Não está
cá fora. Aliás, o Senhor queria que vocês vivessem da vossa felicidade. Todos
os dias a toda a hora. Da vossa felicidade e não para ela ou em busca dela.
Viver da vossa felicidade é dar importância aos vossos melhores pensamentos.
Dar-lhes energia. Viver da vossa felicidade potencia o vosso poder criador. O
vosso lado de Deus, que Deus vos deu. É estar contente com um dia de sol e
igualmente contente com um de chuva. Ele tinha razão. “Vou esconder o seu
melhor onde eles não vão procurar. Dentro deles.” – disse. Tão cegos vocês
andam. Tudo o que é grandioso e milagroso está escondido no vosso interior. Não
do lado de fora. O dinheiro não vos vai fazer felizes, nem contribuir para tal,
como já estarão alguns a dizer. Nem vai um carro novo. Nem uma casa nova. Nem
uma namorada, ou namorado, novos. Se não descobrirem a vossa felicidade
interior, nada do que está fora de vós vos vai fazer felizes. Nada, nada mesmo.
Enquanto viverem em “guerra” com vocês mesmos, vão viver em guerra com tudo o
que vos rodeia. Se Jesus, porque ele não era nenhum Cristo, fez milagres, foi
porque tinha a perfeita noção da sua felicidade e porque focava toda a sua
energia feliz nos seus melhores pensamentos. Para ajudar os outros. E não
porque era filho de Deus e tinha super poderes. Porque, primeiro não era filho
de Deus, pelo menos direto. Toda a gente sabe como se fazem filhos e Nosso
Senhor não teve desses encontros com Maria de Nazaré. E segundo, super poderes
só nos filmes e na banda desenhada. Jesus compreendeu a essência daquilo que
Deus queria que vós, Homens, fizessem e fê-lo. E apregoou-o. E depois algum
estupor distorceu todas as suas palavras, fez de mim um génio do mal e fez-vos
acreditar no quão pobres e fracos sois. E vós acreditastes.
Resumindo. Aquilo que o Criador quer é que vivam a vossa
vida segundo as vossas crenças. Se não gostam do mundo em que vivem tentem,
primeiro, mudar a forma como pensam nele em vez de fugirem já para Marte (não
há lá nada de interesse. Eu sei, eu ajudei a construí-lo.). Sonhem o mais alto
que se lembrem, sem limites. Foquem-se nesses sonhos, alguma solução há-de
aparecer. Eu depois dou uma ajuda. Meto uma cunha lá em cima. E aprendam, de
uma vez por todas, que nenhum bem material, ou imaterial exterior, vos vai
fazer felizes, porque felizes já vocês são, só que vos fizeram deixar de crer
nisso. E, acima de tudo, assumam a responsabilidade e o controlo das vossas vidinhas,
sim? Nada do que vos acontece é tão importante como a forma como vocês lidam
com isso. Parem de culpar terceiros pelas vossas circunstâncias e tristezas.
Ninguém tem culpa. Nem Deus, nem os governos (foram vocês que os elegeram, não
foram? Quem tem responsabilidade?) e muito menos eu. Sou um mero trabalhador do
Reino dos Céus, enviado para o Inferno para gerir a entrada das almas perdidas
que decidiram, durante toda a sua vida, viver no cinzentismo, infelizes e
taciturnas durante toda a sua existência. Estes sim vão viver para sempre,
perdidos, porque nunca conhecerão o descanso eterno.
Agora que desabafei e desvendei todos os segredos da
criação, espero que me deixem na minha santa vida. Vou voltar ao trabalho, no
clima tropical do Mundo perdido, mas sempre ciente de que sou feliz e que adoro
tudo o que faço neste mundo fabuloso que é o meu.
Adeusinho.
Lúcifer.