Quem Sou Eu?
Quem sou eu? Sim, quem sou eu? 27 anos de existência. Quase
28 anos a tentar descobrir quem sou e não consigo ter uma pequena ideia. Não
sei quem sou nem para onde vou. Não sei o que me move, ou qual a minha vocação.
Qual será o propósito da minha vida? Não tenho sequer noção do próximo passo lógico
a dar. Afinal, quem sou eu?
Para a maioria sempre fui introvertido. Calado.
Envergonhado. Muitos não me consideram, sequer, uma pessoa simpática. Pelo
contrário, antipatia é o meu nome do meio. Será que sou mesmo assim? Durante
vários anos acreditei que sim e foi assim que vivi. Fechado no meu mundo. Sem
partilhar emoções e pensamentos. Sem extravasar o pouco de criativo que tinha
dentro. Sempre com medo do que pudesse dizer ou fazer. Ansioso pela aprovação
dos meus pares e receoso da sua reprovação. Com um pé atrás e o outro sempre
pronto a voltar, correndo o mais depressa que podia. O medo de andar sozinho
instalou-se e a dependência também. Sempre com os “paizinhos” para cá e para
lá. Até mesmo o contacto físico, mesmo que com alguém do sexo oposto, num acto
de carinho juvenil, me fazia confusão. Cumprimentar alguém era como que uma
descida ao Inferno. Só depois de muita confiança me sentia seguro para sair da
bolha. Mas, ainda assim, nunca sem largar as mãos do refúgio. Em vez de amar o
próximo, temia-o. Tornei-me um velho rezingão que, apesar de saber ser
carinhoso, afastava os entes queridos com um latido raivoso. Apoio para sair?
Para enfrentar o mundo e agarrá-lo pelos chifres? Só de “fora”. De alguém que
hoje, vejo, tinha muita razão, apesar de não a ter toda. Vivi assim até atingir
a idade adulta.
Relações pessoais, para mim, complicadas, muito complicadas.
Ciúmes excessivos, por não confiar em nenhum ser humano vivo, nem mesmo em mim.
Desconfiança e sufoco. São algumas das palavras que podem descrever os meus
relacionamentos amorosos (apenas dois) até aqui. Posto de lado, magoado e
deprimido. Factos que agravaram, ainda mais, a minha personalidade fechada.
Ganhei peso e desisti do curso universitário. Qual era a novidade? Já não era a
primeira coisa de que desistia. Aos 19, finalmente, alguém mudou, um pouco, a
minha vida. Comecei a acreditar que várias coisas, em que não acreditava, eram
possíveis. Fiz-me, pela primeira vez, à vida. Um emprego temporário, outro, de
seguida, um pouco mais seguro e recuperei um peso saudável. Tomei, em parte, as
rédeas da minha vida. Deixei o trabalho por incompatibilidades e voltei à
faculdade, numa área oposta da anterior. Mas, rapidamente, redescobri um velho
padrão. O deixar andar. Apatia. Havia a intenção de trabalhar de dia e estudar
à noite. Mas não passou de uma boa intenção. Facilmente coloquei a ideia de
lado. Mas havia, felizmente, aquela pessoa importante e especial que não me
deixou desistir. Mais um emprego, para ajudar a pagar os estudos. Mais 6 meses
a laborar até estar de fora, outra vez. Mais dois anos de padrões velhos
conhecidos e a deixar andar. Porém, mais um esforço e acabo alguma coisa que
comecei. O curso estava terminado. Aos 26 anos era Sr. Dr.. Tornara-me mais um
para a lista de jovens licenciados desempregados. E dava mais um passo na minha
vida apática.
Em paralelo com o regresso à faculdade começa uma nova saga.
Descobri a paixão pela leitura. Muito porque uns anos antes tinha descoberto a
paixão pela escrita, sobretudo humorística e sarcástica - fruto do meu lado
fechado e negativo. Mas não era ficção que queria ler. Queria saber o
funcionamento do cérebro humano e as nossas motivações. O que se escrevia em termos
de auto-ajuda e psicologia. Talvez por me querer entender. Tornei-me um apaixonado
e um viciado. Por este facto, e para ajudar a minha alma gémea a passar por um
período muito complicado da sua vida, adoptei muitas das filosofias presentes
em tais publicações. Levar uma vida mais positiva. Olhar sempre para o lado bom
da vida, como profetam os saudosos Monty Python. Acreditar nos meus sonhos.
Levar a vida sem stresses. E saber que tudo, em todas as circunstâncias tem uma
solução. Andar de cabeça erguida. Ser confiante e agir mesmo quando sentimos
medo. Furar a zona de conforto. Saber que a felicidade é interna, faz parte de
nós e que nada no exterior nos vai fazer mais ou menos felizes. Acima de tudo
ser completo. Enraizei em mim esta filosofia de tal forma que muitos dos que me
acompanham acreditam que sou pessoa mais calma à face da Terra. Querem, mesmo,
beber um pouco desta sabedoria Zen. Querem saber o que faço e ser como eu. A
outros nem lhes interessa o que prego. Mas, confiante de mim e ciente que há
coisas que não controlo, sigo o meu caminho. Mas, mesmo nesta fase de confiança
e de atitude positiva e pró-activa, segue-me a apatia típica de mim mesmo. Até
ter recebido um ultimato. Não podia perder a pessoa mais importante da vida.
Por isso, tomei atitudes reais e concretas e atirei-me ao futuro.
Mas será este ser positivo o meu verdadeiro eu. Serei tão
bom actor que engano todos os outros e pior, engano-me a mim próprio?
A verdade é que continuo sem saber quem sou. O que faço
aqui, ou para onde vou. Mas sei que a filosofia que me forçaram a seguir, nos
meus primeiros anos de vida, talvez para me protegerem, não resultou em nada.
Apenas em frustração. E a minha nova forma de ver o mundo já me trouxe muitas
alegrias. Incluindo a maior de todas, até hoje. Poder partilhar a vida com uma
pessoa que não é deste mundo. No entanto, ainda reside o medo de partilhar tudo
o que me vai na alma. Ainda há quem me ache um mistério, mesmo os que me vivem
próximo. Ou por não querer magoar quem amo, ou por não querer ser excluído. O
meu “velho” eu ainda volta e assombra-me diversas vezes. Dou comigo depressivo
e a pensar no apocalipse. A tremer de medo de enfrentar os gigantes que me
rodeiam. Focado nas coisas mínimas, fazendo delas muros de alturas
inalcançáveis. Transformo os pequenos desafios em grandes problemas. Volto, por
breves momentos (às vezes longos demais), a um passado que devia ter ficado lá
atrás, intocável. Recordo memórias que mais ninguém recorda. Revivo um filme
negativo de uma vida com muito mais coisas boas que más. Perco o foco no
favorável e viajo ao desfavorável. Perco o caminho das soluções. Fecho-me no
meu universo paralelo.
Diz a minha outra parte que me tenho em muito pouca
consideração. Talvez tenha. Talvez saiba quem sou, mas tenha medo de o assumir
e demonstrar. Talvez seja positivo e, para me proteger fechei-me. O feedback já
me disse que era introvertido. Que não falava e não tinha jeito para trabalhar
com pessoas. Que não conseguiria vender. Que era medricas e não saía da casca.
Que era negativo, pessimista e tinha uma visão distorcida da vida. Que o meu
mundo era cinzento demais. Hoje diz-me algo oposto. Que sou criativo e
divertido. Simpático. Bem-humorado. Que sou uma pessoa agradável. Sociável e
adaptável. Chegam mesmo a dizer que sou atraente e não passo despercebido -
algo que tentei fazer toda a minha vida. Que querem ver o mundo como eu. Que
sou capaz de falar com pessoas e persuadi-las a adquirirem o que estou a
vender. Que o meu mundo tem mais cores. E que, afinal, sou capaz de amar. Ainda
que às vezes o antigo companheiro “eu fechado” regresse e eu me feche e não
trate da melhor maneira possível os que me querem bem (desculpem-me os meus
pais, irmã, namorada e amigos), eu acho que sou uma pessoa diferente. Forte,
positiva, determinada e capaz de fazer acontecer aquilo em que acredito. Feliz.
Com dois lados ambíguos, como se vê no próprio texto, a viver em uníssono.
Afinal, eu sei quem sou. Sou um ser humano, como qualquer
outro. Perfeito na sua imperfeição.
Eu sou eu.