Valores do Avesso
Todos temos valores. Normas segundo as quais nos regemos. E,
mesmo que não tenhamos noção, ou não saibamos quais são, é com base neles que
agimos. Todos os dias. No entanto, nos dias de hoje os valores estão
completamente trocados. Do avesso. As pessoas valorizam o que, na realidade,
não tem valor.
Há milhares de anos atrás, criado por filósofos gregos, foi introduzido o dinheiro. Por necessidade de uma moeda
de troca entre mercadores e comerciantes. E, desde essa altura, esta preciosidade,
não tem feito mais senão corromper as pessoas e as suas boas intenções.
Há cerca de 2000 anos, mais coisa menos coisa, Judas
Escariotes foi um dos primeiros seres humanos da história (pelo menos
documentada) a ser comprado com dinheiro. Vendeu Jesus aos romanos por sete
moedas de prata. Preço relativamente baixo, dada a importância que os romanos
davam ao Cristo, segundo a bíblia. Podiam ter aberto os cordões à bolsa e pago
um pouco mais.
Depois, a história enche-se de corrupção e ganância. Era o rei Midas
que transformava em ouro tudo o quanto tocava. O Pinto da Costa que comprava
vitórias com “fruta” – este acho que ainda o faz. E muitos (muitos é dizer
pouco) outros casos.
A humanidade fixou-se num conceito abstracto, criado por um ser
humano, como qualquer outro, há milénios. E tudo fica pior quando, a partir
deste conceito abstracto, começamos a valorizar tudo o resto. Quando o ouro
começa a ter valor monetário. Quando o petróleo começa a ser cotado em bolsa.
Quando a energia atómica é fonte de rendimento. O mundo entra em colapso.
Começam-se guerras. Matam-se irmãos. Roubam-se velhinhas. Vendem-se crianças.
Tudo por causa de um conceito abstracto, que, na realidade, nem sequer existe.
Os romanos caíram por causa do dinheiro, da ostentação e da ganância. O mesmo
com o gregos. O reino alexandrino. E muitas das civilizações extintas até aos
dias de hoje. Algo que ainda ninguém percebeu e que se aproxima, a passos
largos, da nossa civilização capitalista. O fim está perto, previram os Maias.
E não acho que estejam assim tão longe da verdade. Mais uma vez, devido a um
conceito abstracto criado por um homem há uns milhares de anos.
Mas porque é o dinheiro um conceito abstracto? Perguntarão
alguns de vós. Porque, tal como o conceito de tempo, também inventado por nós,
o dinheiro não existe. Não se consegue tocar. Então e as notas e as moedas?
Perguntam agora. As notas e as moedas não são dinheiro. São pedaços de papel e
de cobre com desenhos e formas. Isso sim, são conceitos reais, pois podemos,
facilmente, tê-los na mão. Se não tivéssemos decretado que uma moeda de 2 euros
tinha o valor de 2 euros, ou 400 escudos em moeda antiga (esta é para os
antiquados que não se souberam adaptar), que valor teria uma moeda de 2 euros?
Zero. Zero é a resposta. Não teria qualquer valor. Para quem acompanha a bolsa
de valores e as notícias da crise, com uma mente aberta, em busca de informação
real (eu e mais alguns iluminados), repara que tudo não passa de especulações.
Os movimentos da bolsa são especulativos. Acha-se que determinada acção subirá,
ou descerá um certo número de pontos. Especula-se. E quanto aos juros, a
barreira dos juros é uma barreira psicológica. A taxa de juro, sobe ou desce
conforme o medo dos mercados. Ora hoje está a 3%, ora amanhã a 5%, mas sempre psicologicamente.
Nada disto existe, na realidade. Não são objectos que se podem tocar. Mas é
nisto que as pessoas, os seres humanos, se focam. E ficam obcecados com algo
que nem sequer está no mundo real, nem, verdade seja dita, entendem. É uma
espécie de amigo imaginário como aqueles que tínhamos quando éramos crianças. E
pelos quais toda a gente nos gozava. Se forem ao multibanco ver a vossa conta
bancária, aposto que não vêem dinheiro. Vêem uma quantidade números escritos
num ecrã. E quando fazem uma transferência ou um pagamento, diminuem os números
na vossa conta e aumentam na conta de chegas. Números. Iguais aos do jornal, ou
da tabuada do ratinho. Escritos. Nos quais não podemos pegar.
Outra coisa que é preciso reter é que o dinheiro não se
gasta. Uma vez que ele não existe, também não pode desaparecer. Sim, são
queimadas notas todos os dias, nos bancos centrais, mas isso é para que saiam
de circulação, para que não haja cópias, e são logo feitas notas novas. E, lá
está, como os bancos têm o poder de criar notas novas todos os dias, só não
criam mais porque não querem. É assim desde sempre e vai ser assim sempre. Vai
haver crises económicas. Vai haver guerras, fomes e pobreza. A vida segue.
Renova-se. E também o papel moeda e o cobre se renovam. E se têm valor, repito,
é porque nós lho demos.
Mas o verdadeiro poder está no conhecimento. Não no
dinheiro. Se assim não fosse, os EUA não estavam tão desesperados a tentar
aprovar uma lei que, praticamente, acaba com a Internet. Travando o fluxo livre
de informação que veio crescendo ao longo dos anos. Parando o acesso ao
conhecimento. É a velha máxima de “olhos que não vêem, coração que não sente”.
Vejam a China. Sem acesso livre às plataformas virtuais, vivem como robôs, num
planeta cinzento. Trabalham de sol a sol, achando que é isso que todos fazem.
Eles não têm, sequer, noção do que os rodeia. Não têm qualquer contacto com o
exterior. Os que saem não voltam e procuram persuadir outros a sair. A Coreia
do Norte. O Afeganistão. Em todas as ditaduras, ainda em vigor e nas passadas,
tudo passa por controlar o acesso à informação, ao conhecimento. Só assim
conseguem dominar hordes de mentes com poder criativo e destruidor. Mas no
mundo ocidental, onde nós já tivemos todo o acesso ao conhecimento disponível,
brincar com a nossa liberdade pode dar mau resultado para os líderes. As nossas
mentes estão muito mais preparadas e abertas para entrar em acção e provocar o
caos. Num abrir e fechar de olhos. Eles podem ter o dinheiro, mas o povo, os
mais jovens e os mais informados têm o poder. Vejam os exemplos do Egipto, da
Líbia. Obtiveram conhecimento do mundo e quiseram viver a mesma liberdade. As
manifestações contra os diversos governos. Os movimentos “Ocupa”, em vários
países. A circulação de informação, a que eles chamam pirataria, está a começar
a fazer moça nos diferentes governos e isso assusta os todos poderosos
americanos.
Sou um observador nato, ou talvez um coscuvilheiro. Adoro
sentar-me num banco de jardim, ou parar encostado a um muro e observar a vida
dos outros. É uma corrida. Novos, velhos, trabalhadores, reformados. Não
interessa qual a sua classe ou estado social. Todos correm, quais formigas, de
um lado para o outro. Doidas, doidas, doidas andam as galinhas e as pessoinhas
também. Tudo por causa do… dinheiro. Porque nos foi ensinado e enraizado que
assim tem de ser. Correr, correr, correr. Para quê? Para onde? Ninguém sabe
bem, mas parar não é opção. Nem para ajudar alguém que cai. Ou dar uma mão
amiga a quem precisa. Correm por dinheiro, matam por dinheiro. Já conhecem a
minha busca pelo auto-conhecimento. Mas há uma coisa que eu sei. O dinheiro não
está nem de longe nem de perto, na minha lista de valores. Pelo menos, não nos
principais. É negro demais e corrupto demais, para merecer que me levante de
manhã por ele. Quero dinheiro? Sim, claro, só com ele posso concretizar muitos
dos meus sonhos, mas não preciso dele, nem me movo por ele. Pergunto-me onde
está o amor, o carinho, a amizade, a confiança, a honestidade. Onde param a
alegria, a felicidade, o bem-estar, a diversão? A minha mãe só fala de
dinheiro. A namorada e os amigos só falam de trabalho. Querem saber como me
corre o trabalho. Se tenho dinheiro até ao fim do mês. E eu… Não quero nem
saber. Como dizem os brasileiros (de resto, povo com o qual devíamos aprender
umas coisas): “Não ‘tou nem aí.”. Não ligo. Não podia ter uma relação pior com
este bem que parece tão indispensável. Dou o que tenho de dar. Pago o que tenho
a pagar. Compro o que tenho a comprar. E se me levanto de manhã para trabalhar
6 dias por semana, é porque me dá gozo. Porque adoro o contacto com as pessoas,
porque quero fazer a diferença no dia de quem se cruza comigo. Quanto mais não
seja com um sorriso e uma palavra amiga. Não ganho um tostão e nunca me senti
tão realizado.
Acho que está mais do que na altura de repensarmos os nossos
valores e vermos se não estamos errados. O capitalismo vai cair e nós vamos com
ele. O vosso Deus tem cifrão e é maligno.
Comentários
Enviar um comentário
Opiniões