A Luz
Era uma vez uma vila. Uma pequena vila, a Vila Perfeita,
como lhe chamavam os poucos habitantes. Na Vila Perfeita havia apenas algumas
casas, todas iguais. Todas quadradas, pintadas de branco e com o telhado
vermelho. As portas eram no mesmo sítio, as janelas eram simétricas. Tudo era
igual. Uma a seguir à outra. Era a vila Perfeita. Isto é, todas, excepto uma. A
meio da Rua Branca, entre duas casas gémeas, entre uma vedação de madeira velha
e podre, encontrava-se uma casa diferente. Tinha sido a primeira casa a ser
construída naquela área, centenas de anos antes dos habitantes de Vila Perfeita
terem chegado. Estava abandonada e velha. Era, também ela, feita de madeira, no
topo, com tijolos no fundo, para segurar o seu peso. Como é normal nestas
situações, a casa começou a ganhar má fama. Rumores e histórias começaram a ser
contados e a casa, abandonada, era dada como assombrada. Nunca ninguém lá
ousara entrar e nunca ninguém ousaria.
Mas, para que percebam a história daquela casa, vamos
voltar atrás. Num qualquer ano, do início do séc. XX, uma família de quatro
elementos chegou a uma terra que, na altura, não era de ninguém. Não havia
gente, não havia casas, não havia nada senão terra. Sem sítio para onde ir,
montaram uma pequena tenda e lá dormiram durante dias. Gostando do local e como
possuía alguns conhecimentos de construção, o pai da família decidiu construir,
ali, o seu ninho. Primeiro, imaginou a sua casa de sonho. Em seguida, indagou,
junto da família, como seria a sua casa de sonho. E, com um plano em mente,
deitou mãos à obra. Abriu, à força de pá, um fundo e largo buraco. Construiu os
alicerces e, dali, o único caminho era para cima. Colocou os tijolos no fundo,
como suporte, e, para ser mais fácil e rápida a construção, construir o resto
em madeira. Como conseguiu os materiais, ninguém sabe, mas, com a determinação,
perseverança e um desejo ardente, em menos de três meses, tinham a sua casa
pronta. Mudaram-se, mal terminaram da tenda para o aconchego do lar. Tudo o
resto: vedação, mobília, etc.: foi sendo construído, aos poucos, pelo próprio
pai. Sem saber muito bem como, a fama de bom carpinteiro atravessou fronteiras
e chegou às cidades vizinhas. Rapidamente, encomendas começaram a surgir e o homem,
que nada tinha, arranjou, não só uma casa para viver, como trabalho a mais para
as poucas horas que o dia lhe fornecia. Teve de ensinar o filho e fazer dele
seu ajudante. A família, que vivia no nada, prosperou, mas continuou a viver
sozinha, naquele pedaço de terra que não era de ninguém.
Em pleno séc. XXI, a pequena vila continuava vazia.
Apenas aquela casa, centenária, se encontrava lá. Dentro da sua velha vedação.
Ninguém mais a habitou e, dos seus donos, só a lenda da sua construção é
contada. Até que, um dia, um grupo de empreiteiros descobriu o descampado e achou
por bem urbanizar a área. Construíram a Vila Perfeita, com as suas casas todas
iguais, todas simétricas, sem um milímetro de imperfeição. Mas mantiveram a
velha casa, intacta. Primeiro, porque seria um marco para a vila, mas mais
importante, porque era mesmo muito antiga e, o presidente da cidade vizinha não
deixou que a demolissem. As pessoas começaram a chegar. Jovens casais começaram
a habitar os seus lares e a Vila Perfeita ganhou vida. Centenas de anos depois
de aquela família a ter descoberto.
Com nova vida à sua volta, a velha casa começou a ganhar
uma nova reputação. Passou de ser um marco da determinação e desejo de um homem
para ser um malogrado mamarracho. Começaram a voar mitos. A família teria sido
assassinada naquela casa. O espírito inquieto, do pai, que não queria que
ninguém abitasse o ninho que, com tanto amor, construiu, recusava-se a deixar a
terra e aterrorizava quem quer que fosse que se aproximasse. Viviam monstros na
cave. Um sem número de lendas, que foram nascendo, mas que nunca foram
comprovadas. Nunca foram comprovadas, porque nunca ninguém tinha tido a coragem
de atravessar o velho portão de madeira podre. Uma vez, um jovem curioso e
intrépido tentou. Contra a vontade da sua jovem esposa e sob o aviso dos seus
vizinhos, ele foi à luta. Quer dizer, deu uns passos no caminho da luta. Ao
chegar ao velho portão, a velha madeira da casa rangeu e o jovem destemido saiu
disparado, em direcção à sua própria casa. Na possibilidade de enfrentar a casa
assombrada, perdeu a coragem, meteu o rabo entre as pernas e saiu disparado,
para o conforto da sua cama. Mas a curiosidade, essa, nunca esmoreceu. Só mesmo
a coragem.
Passaram-se anos. Começaram a nascer crianças. A
população de Vila Perfeita crescia. Os vizinhos eram, agora, amigos e os seus
filhos criados como irmãos. As crianças cresceram, começaram a brincar na rua
e, sabem como são as crianças, a ficar curiosas. Aquela casa tinha algo mágico,
mas, ao mesmo tempo, diabólico. Os pais avisavam.
- Nunca se aproximem daquela casa. É muito perigosa. Tem
monstros, que vos fazem mal. – diziam.
E, durante mais alguns anos, as crianças mantiveram-se
afastadas. Jogavam bolas para lá da vedação e elas lá ficavam. Perseguiam
gatos, só até um certo número, seguro, de passos da casa e, depois,
deixavam-nos ir. Sob sua conta e risco, para lá da protecção de madeira velha.
Qualquer barulho vindo da velha habitação, fazia tremer os petizes e, muitas
vezes, os próprios pais. Mesmo muitas vezes. Mas, como é normal nas crianças, a
curiosidade é superior ao medo.
Lembram-se do jovem intrépido, que quase atravessou o
portão? Pois, a sua curiosidade foi passada ao seu filho, João, de seu nome. Só
que, em João, a curiosidade era o dobro, senão triplo, ou dez vezes maior que a
do pai. Não só nele, mas nas outras crianças da vila também. Todos herdaram a
curiosidade dos pais. Uns mais, outros menos. Herdaram, ainda, a coragem e o
medo. Mas em quantidades superiores. Uma espécie de upgrade. E brincavam uns com os outros. Assustavam-se e
desafiavam-se para ver quem se aproximava mais da casa assombrada. João sempre
foi o mais corajoso, tal como o pai tinha sido antes, e chegou, mesmo, a tocar
na vedação. No entanto, um ruído, vindo interior, afastou-o de seguida. O rapaz
subia às árvores mais altas. Saltava dos telhados sem receio. Fazia trinta por
uma linha, mas faltava-lhe uma coisa. Não conseguia enfrentar a velha casa, de
madeira negra.
Frustrado, João começou a ficar obcecado com a ideia de
atravessar a vedação e penetrar a velha porta, rumo ao interior do monstro. A
ideia não lhe saia da cabeça. De noite, ou de dia, o desejo crescia dentro dele.
- Um dia, entro. – pensou para ele mesmo.
Certo dia, aproximou-se do pai e perguntou:
- Pai, já alguém tentou entrar na casa velha?
- Não. – respondeu o pai, arrependendo-se – Quer dizer.
Uma vez, eu tentei.
- E porque não entraste? – perguntou o filho.
- Bem, as histórias que se contam são atrozes. Ninguém
sabe o que há lá dentro. Não sabemos, sequer, se a casa está segura. Pode cair
a qualquer momento. E a tua mãe demoveu-me. – contou o pai.
Mentiu-lhe, claro está. Não disse que, como o filho,
estava cheio de curiosidade e, até aquele dia, a curiosidade vivia dentro dele.
Mas, naquele dia específico, no dia em que ia atravessar o portão, o medo bateu
a curiosidade e ele fugiu, a sete pés, da velha casa.
Mas João estava determinado a ser diferente. Ele ia
entrar na casa. Uns dias após a conversa com o pai, numa segunda-feira, na
escola, reuniu os colegas.
- Eu vou entrar na casa. – afirmou com vigor.
- Não tens coragem. – disse um dos colegas.
- Tenho e vou fazê-lo. – disse o João – Não só vou
fazê-lo, como vou fazê-lo de noite. Quando os nossos pais estiverem a dormir,
juntamo-nos à porta da velha casa e eu entro. Quero saber o que tem dentro. Quem,
o que vive lá. Quero conhecer o que não conheço. Não peço que nenhum de vocês
venha comigo, apenas que fiquem cá fora, para haver provas de que entrei.
- E quando vais fazê-lo? – perguntou outro colega.
- No fim-de-semana. Sexta-feira. Está decidido –
respondeu João.
Os dias que se seguiram foram de preparação. Mental e
física. João correu mais do que nunca, trepou mais do que nunca e saltou mais
do que nunca. Preparou-se para fugir, caso o fantasma, ou que for que habita a
velha casa, decidisse persegui-lo. Mentalmente, dizia a si mesmo que conseguia.
Que era corajoso e capaz de atravessar a vedação. De penetrar a barriga da
besta e descobrir o que há para lá daquelas paredes. Estava determinado a
conseguir passar. Encontrou, na garagem de sua casa, uma lanterna e arranjou
pilhas suplentes, para o caso da lanterna falhar. É o que acontece sempre nos
filmes de terror.
Os dias passaram e a ânsia cresceu. Era sexta-feira. João
já não aguentava mais. Retirou-se para o quarto e esperou que os pais fizessem
o mesmo. O que, eventualmente, acabou por acontecer. Munido da sua lanterna e
das pilhas, saiu pela janela do quarto e dirigiu-se, o mais rápido possível,
para a casa velha. Ao chegar, viu que estava sozinho. Ninguém tinha aparecido.
E o pior, estava a chegar uma tempestade.
- Típico. – pensou.
Viam-se, ao longe, relâmpagos e ouviam-se os fortes
trovões.
- Ninguém aparece. Cobardes. Mesmo sem testemunhas, vou
entrar. Ao menos eu sei que consegui. – afirmou para si.
Do nada começam a chegar os amigos. Todos vieram. Não
queriam perder o espectáculo.
- Boa sorte. – disseram.
E João fez-se ao caminho, como se costuma dizer.
Lentamente aproximou-se do portão Encostou a mão. Era a segunda vez que o
fazia. A casa rangeu, mas, desta vez, João não recuou. Estava decidido.
Empurrou e o velho portão abriu-se. O pior estava feito. A tempestade
aproximava-se. Não havia sinal de adultos. João continuou a avançar,
lentamente, em direcção à porta principal.
- Agora não posso recuar. – pensou – Vão pensar que sou
um cobarde.
Chegou aos degraus que levavam à porta e subiu o
primeiro. A velha madeira cedeu um pouco, mas o jovem manteve-se decidido.
Subiu todos os degraus e alcançou a porta. Os trovões estavam cada vez mais
próximos. João colocou a mão na maçaneta e deteve-se. Havia que tirar a lanterna
do bolso e liga-la. No interior não havia luz. Rodou a maçaneta e abriu a velha
porta. O ranger podia ouvir-se em quase toda a vila. Sorte que os pais dormiam
um sono profundo. Longe da vedação os amigos puxavam por ele.
- Vai João, tu consegues. – gritavam em surdina.
João deu o passo decisivo e entrou. Com a lanterna
apontada, verificou se era seguro dar o passo seguinte. Avançou. No interior,
um pequeno corredor levava à cozinha. A velha mesa, feita à mão, ainda lá
estava. Do lado esquerdo uma porta levava a um salão e, do direito umas escadas
levavam ao andar de cima. A meio do corredor para a sala, uma porta dava acesso
à cave. João avançou destemido para a cozinha. Era grande. Tinha a mesa, as
quatro cadeiras, o fogão a lenha. Tudo muito antigo e apodrecido por falta de
uso. Nada naquela cozinha assustava. João ficou tranquilo. Virou-se para trás,
para assinalar aos colegas que tudo estava bem, quando, de repente, uma rajada
de vento fecha a porta. Um relâmpago irrompe pela casa e a lanterna apaga-se.
- Ah! Estou preparado. – exclamou.
Tirou do bolso as pilhas e substitui-as na lanterna.
Premiu o botão e… nada. A lanterna era velha demais e as pilhas estavam gastas.
Havia-as tirado do pilhão, por engano. João pousou a lanterna na mesa e, com
convicção, continuou a explorar. Aproveitava a luz dos relâmpagos para avançar.
Dirigiu-se à sala, para ver o lá havia. Um sofá para duas pessoas e um
cadeirão. No chão, havia ainda alguns brinquedos, velhos.
- Que terá acontecido às crianças que aqui viviam? –
interrogou-se.
Uma vez mais, não havia nada assustador naquela casa.
Confiante, avançou para as escadas. A luz, no andar superior, era inexistente
e, mesmo os relâmpagos, não iam facilitar a visão. A casa era antiga, mas deve
ter atravessado a fase da história em que se criou a electricidade, porque
havia interruptores nas paredes e candeeiros no tecto. João caminhou até às
escadas. A sua confiança tinha-lhe acelerado o passo. Subiu os degraus, à
medida que os ia vendo. Alcançou o primeiro andar. Vislumbrou três quartos e o
que pareceu ser uma casa-de-banho. Habitação moderna, para a altura. A
iluminação era mesmo inexistente e, mesmo os relâmpagos, não deixavam ver muita
coisa. Acautelou-se novamente e caminhou com devagar. As portas dos quartos
estavam encerradas. Aproximou-se do primeiro e abriu-o. Pela janela irrompeu a
luz da tempestade. No chão uma boneca de porcelana, sentada ao lado de uma casa
de bonecas, de madeira. A cama estava feita, com uma colcha cor-de-rosa.
- Aqui dormiu uma menina. – disse para si.
Continuou. No segundo
quarto, apenas havia uma cama de casal. O relâmpago não deixou ver grande
coisa, mas João reparou que a cama também estava feita. Deteve-se uns segundos,
esperando outro raio de luz, para estudar melhor a habitação. O raio surgiu e,
com ele, um traço de pânico. Encostado à parede, pendurado do tecto, João viu
um esqueleto. Não se conteve e correu. Assustado. Afinal, não parecia assim tão
segura, aquela casa. Mas a curiosidade eram mais forte e, de olhos meio
cerrados, avançou para o último quarto. Ao passar na casa-de-banho, a luz de um
relâmpago deixou transparecer aquilo que parecia ser sangue, espalhado pelo
chão. A coragem deu lugar ao terro, mas a curiosidade não largava João e ele
continuou. No último quarto, João encostou-se à ombreira da porta, de olhos
fechados, esperando mais um raio. Quando ele veio, o medo tomou João de assalto
e dominou-o com todas as forças. Na cama e no chão, dois corpos, jaziam. A
jovem criança encostou-se à parede oposta. Ofegante. A cabeça queria fugir, mas
as pernas não deixavam.
- Que barbaridade terá
acontecido nesta casa? – perguntou-se.
Mal recuperou as forças e o
controlo nos seus membros, desatou a correr escadas abaixo, em direcção à
porta. Mas algo o fez parar. A porta da cave. Que mais barbaridades haveria no
fundo daquele monstro? Os seus pais tinham razão, não devia ter lá ido. Mas só
assim se saberia o que lá havia e, só assim, se poderia ajudar aquelas pessoas
a terem uma eternidade tranquila. Decidiu ficar.
- Assim, como assim, estão
mortos. Não hão-de fazer mal. – pensou.
E, novamente destemido,
avançou para a porta da cave. Sabia que o medo estava dentro dele e só ele
podia controlá-lo. Abriu a porta e, no escuro desceu as escadas, que rangiam a
cada passo. No andar inferior, a luz que passava era ainda menor, que aquela
que passava no andar superior. Ver na cave ia ser uma tarefa complicada. Ao
tocar o chão da cave, sentiu água nos pés. O medo tentava controlá-lo, ele
tentava controlar o medo. Deu passos curtos. Com cada relâmpago, João parecia
só ver sangue nas paredes. De repente, achou que, talvez, não tivesse sido boa
ideia continuar a sua exploração. Teve a sensação que estava no centro da cave.
Parou. Olhou em volta. A escuridão nada o deixava ver. Um relâmpago iluminou
quase toda a cave, no espaço de segundos. Do tecto, um corpo pendia, pendurado
pelos pés. João assustou-se e recuou, rapidamente. Bateu na parede com tal
força, que a sua cabeça ressaltou. Mas não tinha ressaltado na parede. Tinha
batido numa coisa dura, mas não tão dura como tijolo. Palpando, descobriu uma caixa
metálica, pendurada na parede. Abriu-a. Com os dedos sentiu uma alavanca. O que
seria? Decidiu levantá-la, para ver que mais horrores surgiriam dali. Fez
força. Muita força e, finalmente, a alavanca cedeu. João, virado para a parede,
como o medo a corroê-lo por dentro, cerrou os olhos. Mas algo estranho tinha
acontecido. Do nada, sentiu claridade. Abriu os olhos de novo.
- É um milagre. A luza desta
velha ainda funciona. Como é possível? – questionou-se.
No exterior, os colegas
ficaram boquiabertos. As luzes da casa tinham-se acendido miraculosamente.
- Espero que os meus pais
não vejam a luz. – disse um deles, preocupado.
No interior, João ainda não
tinha conseguido virar-se. O homem, pendurado do tecto, seria agora muito mais
nítido. Não aguentaria tamanha brutalidade. Por fim, ganhou coragem e virou-se.
Do tecto pendia um saco cheio de areia. A sua finalidade era difícil de
explicar, mas não passava de um saco de areia. Máquinas de lavar, uma bancada
de carpinteiro. Coisas que qualquer casa tem na cave.
- Eu tive medo de um saco de
areia? – admirou-se – Como é possível?
Com novos olhos, decidiu
regressar às outras divisões. Rever as monstruosidades com outra luz. Na sala,
os sofás continuavam lá, bem como os velhos brinquedos. Reparou ainda em
algumas fotografias antigas, que não seriam tão antigas como se julgava ser a
casa. Os brinquedos seriam, provavelmente, de um neto dos donos. Na cozinha
tudo o que tinha visto era real. Mas, ao chegar às escadas parou.
- E se o que eu vi lá em
cima for mesmo real? E se há esqueletos e corpos? – interrogou-se.
Ganhou coragem e subiu,
correndo. No primeiro quarto a boneca continuava encostada à casa de bonecas e
cama estava no mesmo sítio. No segundo quarto, sim, tinha mesmo visto um
esqueleto. Mas era um esqueleto de plástico e estava pendurado na parede. O
sangue, no chão da casa-de-banho, não passava de água ferrugenta, que tinha
ficado tempo a mais, imóvel, escurecendo. E no último quarto. No último quarto,
o medo voltou. Tudo o resto tinha sido fruto da sua imaginação. Mas aquele era
o quarto dos donos. E se eles tivessem morrido sós? E se ninguém soubesse e
nunca lá tivesse ido ver? Avançou lentamente e espreitou. Na cama, onde antes
havia um corpo, estava a caixa de uma viola, vazia. E no chão, nada mais havia
que um velho tapete enrolado. Viu, ainda um guarda-roupa e uma mesinha de
cabeceira. Em cima desta estava um diário. Decidiu agarrá-lo.
- Pode ter histórias
fantásticas. – pensou.
Colocou o diário debaixo do
braço e saiu, calmamente, de dentro da casa. Pelo caminho foi apagando todas as
luzes. Ninguém precisava saber que ele havia lá estado. Ninguém para além dos
amigos. Saiu e fechou a porta. Atravessou o jardim, passou o portão de madeira
e fechou-o. Trazia na cara um sorriso e nos braços um pedaço de história.
- Então? O que havia lá
dentro? – perguntaram os amigos.
- Nada demais. Fantasmas, um
monstro sem cabeça e outras coisas assim. Enfrentei-os a todos. – replicou – E ainda
roubei este diário. Depois digo-vos o que está aqui escrito.
Deixou os amigos espantados
e regressou a casa. A noite foi passada a ler, profundamente, todas as entradas
do diário. Era o diário do dono da casa. A lenda era real. Ele tinha-a
construído sozinho. Apenas com o seu desejo, determinação e perseverança. As
mesmas qualidades que fizeram João enfrentar a casa.
No dia seguinte, levantou-se
a correr e desceu as escadas, em direcção à cozinha. Tinha de contar ao pai a
sua aventura.
- Pai, pai. Não sabes o que
aconteceu. – disse.
- O que foi, João? –
perguntou ao pai.
- Tu vais-te chatear e
vais-me castigar, mas vou-te contar na mesma. – afirmou – Eu entrei na casa.
Ontem à noite, quando vocês dormiam, eu saí de nossa casa e entrei na casa
assombrada.
- Tu o quê? – perguntou a
mãe, que parecia desatenta – A culpa é tua. – afirmou, acusando o pai.
- Calma, o pai sempre me
avisou para não ir lá. Mas eu tinha muita curiosidade. Ganhei coragem e fui. –
intercedeu João.
- E o que viste? - perguntou
o pai.
- O mesmo que vocês.
Monstros, mortos, fantasmas. Vi o terror. Foi isso que me disseram que havia lá
dentro, não foi? – disse o João.
- Sim. – respondeu o pai,
incrédulo.
- Pois, estão enganados. Sem
querer, descobri que a casa tinha luz. E, com a luz, via que a casa está
intacta. Tem toda a mobília, brinquedos e ainda encontrei este diário. Tem toda
a história da sua construção e do início de vida daquela família, aqui. Não há
lá nada que meta medo. E, segundo o diário, a casa é mais segura do que
qualquer outra. O senhor usou técnicas específicas e nunca mais, em 80 anos de
vida, nesta casa, fez obras, a não ser para colocar electricidade. Faleceu com
100 anos. – contou o João.
- Impressionante! – exclamou
o pai.
Desde aquele dia, João,
colocou mais um objectivo na sua mente. Iria, um dia, viver naquela casa velha,
construída para durar. Sabia, dentro de si, que iria comprar aquela casa,
restaura-la e viver nela. Não iria desistir até conseguir. Tal como não
desistiu até conseguir enfrentar aquela casa. Era lá que queria viver com a sua
família. Se tudo corresse bem, até aos cem anos.
O João descobriu que o mundo
é aquilo que pensamos que o mundo é e que temos tendência a encontrar aquilo que procuramos. Quando esperamos encontrar monstros,
fantasmas, atrocidades e terrores, eles aparecem. Mas, quando uma nova luz se
acende e vemos o mundo com outros olhos, buscando mobília, e coisas agradáveis,
é isso que encontramos. Que arriscando, descobrimos um mundo novo ao virar de
cada esquina. Exploramos o inexplorado e desenterramos tesouros, ou damos de
caras com livros de histórias inimagináveis. O João descobriu, ainda, que com
determinação, desejo, perseverança e fé, tudo é possível. Enfrentar uma casa
assombrada, ou construir, sozinho uma casa e todo o seu recheio.
A casa ainda lá está. Bem no
meio de Vila Perfeita. Entre as casas todas iguais, com janelas e portas
iguais, onde pessoas iguais vivem vidas iguais. Foi recuperada. Mantiveram a
estrutura e fachada originais, construídas para atravessar gerações. Arranjaram
a vedação e o velho portão rangente. Tornaram o jardim de ervas daninhas e
árvores mortas, numa paisagem inigualável. Colocaram uma piscina para dar um ar
mais moderno e cómodo. E, hoje em dia, aquela
casa diferente, situada numa vila que é simetricamente perfeita em toda a sua
dimensão, é casa daquele que ousou, um dia pensar e agir de forma diferente. É
nessa casa diferente, que, hoje, eu continuo a pensar, a agir e a viver de
forma diferente, no seio da perfeição da simetria. No centro de Vila Perfeita.
João
Espectacular!!! Adorei! Parabéns! Podemos tirar ideias para o tpo em q vivemos hoje!
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