História de Uma Vida

Escrevo. Sinto. Mas, sobretudo, escrevo e sinto, ainda assim, que não tenho uma história para contar. Não sei quem ficou milionário aos 20. Sicrano criou uma grande empresa aos 16. Ricardo, quase nos 30... não fez nada. Espero um ideia milionária. Não que os milhões me interessem, mas sei que há qualquer coisa, dentro de mim, que pode ajudar muita gente. Não sei o quê, mas sei-o e é isso que quero. Fazer uma diferença.

Acomodo-me facilmente. Deixo de me mexer. Dou-me à inércia. Embebo-me de falta de movimento. Prego o "saltar no abismo". Empurro os outros e fico na berma a vê-los cair no desconhecido e a provarem um pouco de paraíso. Dou conselhos surdos. Conselhos para outros ouvirem. Eles que os levem, eu não preciso. Sei sempre as regras, mas nunca as sigo. Se as seguisse não seria livre. Estava a seguir regras. Podia ter sido músico, fugi quando as coisas estavam a ficar sérias. Podia ser um atleta. Podia ser esbelto e espadaúdo. Podia ser um grande gestor. Podia ser um empreendedor. Um criativo genial. Sei o que fazer, sei como comer, como treinar, como gerir, como ter ideias, só não o faço. Entrego-me, de corpo e alma, ao não envolvimento na vida. Vivo um dia de cada vez, aproveito o momento, mas sempre dentro da minha zona de conforto. Também saio dela, mas ela rapidamente me alcança de novo. Traz a minha cadeira preferida e um copo de whisky com gelo, para apreciar os jogos de futebol na televisão. Aprendi na Rua Césamo: "Podia, podia, mas não ia dar. Quem é que martelava?". "Podia" é uma palavra muito feia. Uma possibilidade que passou, que deixamos fugir por entre os dedos. E a zona de conforto é uma meretriz ingrata.

Já fiz coisas, nesta vida. Toquei em palcos, senti a adrenalina, licenciei-me e aprendi que sou um milionário imaterial. Escrevo para que me leiam, sinto para que me sintam, mas, sobretudo, escrevo e sinto que não tenho uma história para contar.

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